Uma roupa não precisa terminar no primeiro armário

Para o Lavô Tá Novo Brechó, essa lógica não é novidade. Fundado por Carina Cardoso, o brechó surgiu há 12 anos com a intenção de apresentar a roupa de segunda mão sob outra perspectiva. A seleção das peças, o cuidado com a apresentação e a própria experiência dentro da loja fazem parte de um trabalho que procura afastar aquela antiga associação entre brechó e roupa sem qualidade ou sem cuidado. Ali, a peça usada não é vista como algo que perdeu seu valor, mas como algo que ainda pode encontrar alguém que queira usá-la.

Foi a partir dessa ideia que o Lavô se juntou à Reptilia para realizar o Reuse, uma ação voltada à circulação de roupas e ao fortalecimento da moda autoral de Curitiba. A parceria com a Reptilia amplia justamente essa conversa. Criada pela arquiteta e estilista curitibana Heloísa Strobel, a marca construiu seu trabalho a partir de uma relação mais cuidadosa com a produção de roupas, explorando diferentes técnicas, materiais e formas de construir suas peças. Seu olhar para a moda passa pela arquitetura, pelas artes e pelo design, resultando em roupas de estética contemporânea que não dependem de tendências passageiras.

Por isso, o Reuse não se resumiu a uma ação de troca. Havia uma tentativa de repensar o caminho de uma roupa depois que ela deixa de ser desejada por seu primeiro dono. Uma peça da Reptilia que estava parada em um armário poderia ser transformada em desconto para uma nova compra e, ao mesmo tempo, ganhar espaço para encontrar outra pessoa no acervo do Lavô. É uma maneira prática de colocar em discussão algo que a moda costuma esquecer: antes de pensar em produzir mais, também é possível fazer circular melhor aquilo que já existe. E talvez seja justamente nessa simplicidade que esteja uma das forças da proposta: transformar a ideia de circularidade em uma experiência concreta, e não apenas em um discurso sobre sustentabilidade.

Quando o autoral encontra o circular

A proposta ganhou ainda mais força com a presença de outras marcas independentes de Curitiba. A Pineax levou para o evento seu trabalho com peças de couro produzidas manualmente. Criada por Juliane Machado Pinheiro, a marca aposta em objetos pensados para acompanhar o consumidor por bastante tempo, valorizando a qualidade da matéria-prima e o trabalho envolvido em cada peça.

É uma perspectiva que conversa diretamente com a proposta do Lavô, ainda que por caminhos diferentes. Enquanto o brechó trabalha para prolongar a vida de roupas que já foram produzidas, a Pineax parte de uma produção artesanal em que o tempo investido na criação é parte importante do produto final. Em ambos os casos, existe uma oposição à lógica de comprar, usar pouco e substituir rapidamente. A aproximação entre os dois trabalhos ajuda a perceber que a moda circular não precisa seguir um único caminho: ela também pode estar na durabilidade, no cuidado e na relação que se constrói com aquilo que se compra.

A Moonday, fundada pela designer Tuyra Rosa, apresentou outra possibilidade dentro dessa conversa sobre sustentabilidade. Uma de suas coleções utiliza um material sintético semelhante ao couro, produzido a partir de resíduos de milho, sendo que 69% de sua composição tem origem natural. Além de apresentar uma aparência próxima ao couro animal, o material possui longa durabilidade, não descasca e não tem cheiro, características que mostram como novas alternativas podem ser incorporadas ao design sem abrir mão da estética.

A preocupação com os materiais também aparece nos detalhes: as pedras utilizadas nas alças das bolsas Tuyra e Miranda são naturais. O trabalho da Moonday acrescentou ao evento outra dimensão para a discussão e mostrou que a moda autoral pode buscar soluções sustentáveis também no desenvolvimento de novos produtos. Ao lado da Pineax, a marca ajudou a apresentar diferentes possibilidades de fazer moda localmente, cada uma com sua própria relação com materiais, produção e durabilidade.

Mais do que reunir marcas com propostas semelhantes, o encontro permitiu enxergar a sustentabilidade por diferentes perspectivas. No Lavô, ela aparece na circulação; na Pineax, na produção artesanal e na durabilidade; na Moonday, na escolha de materiais. São caminhos diferentes que acabam encontrando um ponto em comum: a tentativa de estabelecer uma relação menos descartável com a moda.

Moda como encontro

Também fez parte da programação o Tour de Brechós, organizado pela consultora de imagem e mentora de estilo Lívia Antonelli. A proposta vai além de levar um grupo de mulheres para comprar roupas: é uma forma de apresentar diferentes possibilidades de consumo e aproximá-las da moda autoral e circular produzida em Curitiba. Em vez de limitar a experiência aos grandes shoppings e às mesmas marcas, o tour convida as participantes a garimpar, experimentar e conhecer negócios que fazem parte da cena de moda da cidade.

Recebidas no Lavô Tá Novo com café da manhã e espumante, as participantes tiveram um espaço para conversar sobre estilo e sobre os próprios negócios. Eram diferentes histórias, trabalhos e ideias reunidas em torno de um mesmo interesse: a moda. E foi nesse momento de troca que o evento pareceu ganhar uma dimensão que ia além das roupas. As conversas aproximavam mulheres com trajetórias diferentes e mostravam como a moda também pode funcionar como ponto de encontro entre pessoas, ideias e trabalhos criativos.

É justamente esse tipo de espaço que mostra como o ato de comprar uma roupa também pode ser uma experiência de descoberta e de cuidado consigo mesma. Sentir-se bem com o que se veste, experimentar algo diferente, encontrar uma peça que tenha a ver com a própria personalidade e, ao mesmo tempo, conhecer quem está por trás daquele negócio transforma a relação com o consumo. No tour, as participantes não apenas encontraram novas peças, mas também tiveram contato com empreendedoras e marcas que fazem a moda local acontecer.

Ao aproximar essas mulheres de brechós e marcas autorais, Lívia também cria uma rede de apoio entre negócios que podem se fortalecer mutuamente. A experiência mostra que consumir moda de forma circular não precisa significar abrir mão do prazer de comprar. Pelo contrário: pode ser uma oportunidade de garimpar com mais intenção, conhecer a produção local, apoiar outros empreendedores e reservar um tempo para si — inclusive para simplesmente vestir uma roupa, olhar no espelho e gostar do que vê.

No fim, talvez seja essa a ideia que melhor resume o Reuse: uma roupa pode continuar contando histórias mesmo depois de deixar de pertencer a quem a comprou primeiro.O Lavô ao reunir marcas autorais, novas matérias-primas e pessoas interessadas em moda, o evento transforma a circularidade em algo mais próximo, cotidiano e possível.